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Um dos princípios mais fecundos dessa
doutrina e que deriva do precedente é o da pluralidade das
existências, já entrevisto por uma multidão de filósofos antigos e
modernos e, nestes últimos tempos, por João Reynaud, Carlos Fourier,
Eugênio Sue e outros. Conservara-se, todavia, em estado de hipótese
e de sistema, enquanto o Espiritismo lhe demonstrara a realidade e
prova que nesse princípio reside um dos atributos essenciais da
Humanidade. Dele promana a explicação de todas as aparentes
anomalias da vida humana, de todas as desigualdades intelectuais,
morais e sociais, facultando ao homem saber donde vem, para onde
vai, para que fim se acha na Terra e por que aí sofre.
As idéias inatas se explicam pelos
conhecimentos adquiridos nas vidas anteriores; a marcha dos povos e
da Humanidade, pela ação dos homens dos tempos idos e que revivem,
depois de terem progredido; as simpatias e antipatias, pela natureza
das relações anteriores. Essas relações, que religam a grande
família humana de todas as épocas, dão por base, aos grandes
princípios de fraternidade, de igualdade, de liberdade e de
solidariedade universal, as próprias leis da Natureza e não mais uma
simples teoria.
Em vez do postulado: Fora da Igreja não
há salvação, que alimenta a separação e a animosidade entre as
diferentes seitas religiosas e que há feito correr tanto sangue, o
Espiritismo tem como divisa: Fora da Caridade não há salvação, isto
é, a igualdade entre os homens perante Deus, a tolerância, a
liberdade de consciência e a benevolência mútua.
Em vez da fé cega, que anula a
liberdade de pensar, ele diz: Não há fé inabalável, senão a que pode
encarar face a face a razão, em todas as épocas da Humanidade. A fé,
uma base se faz necessária e essa base é a inteligência perfeita
daquilo em que se tem de crer. Para crer, não basta ver, é preciso,
sobretudo, compreender. A fé cega já não é para este século. É
precisamente ao dogma da fé cega que se deve o ser hoje tão grande o
número de incrédulos, porque ela quer impor-se e exige a abolição de
uma das mais preciosas faculdades do homem: o raciocínio e o
livre-arbítrio.
Trabalhador infatigável, sempre o
primeiro a tomar da obra e o último a deixá-la, Allan Kardec
sucumbiu, a 31 de março de 1869, quando se preparava para uma
mudança de local, imposta pela extensão considerável de suas
múltiplas ocupações. Diversas obras que ele estava quase a terminar,
ou que aguardavam oportunidade para vir a lume, demonstrarão um dia,
ainda mais, a extensão e o poder das suas concepções.
Morreu conforme viveu: trabalhando.
Sofria, desde longos anos, de uma enfermidade do coração, que só
podia ser combatida por meio do repouso intelectual e pequena
atividade material. Consagrado, porém, todo inteiro à sua obra,
recusava-se a tudo o que pudesse absorver um só que fosse de seus
instantes, à custa das suas ocupações prediletas. Deu-se com ele o
que se dá com todas as almas de forte têmpera: a lâmina gastou a
bainha.
O corpo se lhe entorpecia e se recusava
aos serviços que o Espírito lhe reclamava, enquanto este último,
cada vez mais vivo, mais enérgico, mais fecundo, ia sempre alargando
o círculo de sua atividade.
Nessa luta desigual não podia a matéria
resistir eternamente. Acabou sendo vencida: rompeu-se o aneurisma e
Allan Kardec caiu fulminado. Um homem houve de menos na Terra; mas,
um grande nome tomava lugar entre os que ilustraram este século; um
grande Espírito fora retemperar-se no Infinito, onde todos os que
ele consolara e esclarecera lhe aguardavam impacientemente a
volta!
A morte, dizia, faz pouco tempo,
redobra os seus golpes nas fileiras ilustres!... A quem virá ela
agora libertar?
Ele foi, como tantos outros,
recobrar-se no Espaço, procurar elementos novos para restaurar o seu
organismo gasto por um vida de incessantes labores. Partiu com os
que serão os fanais da nova geração, para voltar em breve com eles a
continuar e acabar a obra deixada em dedicadas mãos.
O homem já aqui não está; a alma,
porém, permanecerá entre nós. Será um protetor seguro, uma luz a
mais, um trabalhador incansável que as falanges do Espaço
conquistaram. Como na Terra, sem ferir a quem quer que seja, ele
fará que cada um lhe ouça os conselhos oportunos; abrandará o zelo
prematuro dos ardorosos, amparará os sinceros e os desinteressados e
estimulará os mornos. Vê agora e sabe tudo o que ainda há pouco
previa! Já não está sujeito às incertezas, nem aos desfalecimentos e
nos fará partilhar da sua convicção, fazendo-nos tocar com o dedo a
meta, apontando-nos o caminho, naquela linguagem clara, precisa, que
o tornou aureolado nos anais literários.
Já não existe o homem, repetimo-lo.
Entretanto, Allan Kardec é imortal e a sua memória, seus trabalhos,
seu Espírito estarão sempre com os que empunharem forte e
vigorosamente o estandarte que ele soube sempre fazer
respeitado.
Uma individualidade pujante constituiu
a obra. Era o guia e o fanal de todos. Na Terra, a obra subsistirá o
obreiro. Os crentes não se congregarão em torno de Allan Kardec;
congregar-se-ão em torno do Espiritismo, tal como ele o estruturou
e, com os seus conselhos, sua influência, avançaremos, a passos
firmes, para as fases ditosas prometidas à Humanidade
regenerada.
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